quinta-feira, 9 de abril de 2020

Pernambuco tem recorde diário de mortes por coronavírus, e letalidade chega a 11,5%

YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
Ao longo de 15 dias, Pernambuco acumula 46 mortes pelo novo coronavírus. Só nesta quarta-feira (8), a Secretaria Estadual de Saúde (SES) confirmou 12 desses óbitos, a maior marca diária registrada desde 25 de março, quando o Estado anunciou a primeira vítima fatal de covid-19. Em território pernambucano, assistimos a uma escalada no volume de mortes que intriga autoridades de Saúde e especialistas, além da sociedade em geral. Atualmente, considerando a proporção de mortes por total de confirmações (401 casos), o Estado tem letalidade de 11,5% - mais do que o dobro do cenário nacional, com 5%. No quesito de coeficiente de mortalidade, que mede o risco de a população morrer em decorrência de uma doença, Pernambuco é a quarta Unidade da Federação com maior taxa, empatando com o Ceará e atrás de São Paulo, Amazonas e Rio de Janeiro.

Sabemos que, no caso desta pandemia, a letalidade nem sempre é uma medida precisa porque há casos que não são detectados porque geram sintomas leves e, pelo protocolo do Ministério da Saúde (MS), não são prioritariamente testados. Se fossem contabilizados, assim como vem sendo feito com os casos graves, a letalidade poderia ser menor. O vizinho Ceará, com 1291 casos confirmados e 43 mortes (35 delas a partir dos 60 anos), tem uma letalidade de 3,3%, bem menor do que Pernambuco, que tem 34 óbitos no grupo a partir dos 60 anos, a faixa etária em que mais se observa o maior número de vítimas fatais.
“Pernambuco é reconhecido por ter vigilância ativa e transparente. Fazemos busca ativa de todos os casos de srag (sigla para síndrome respiratória aguda grave, que pode ser causada pelo novo coronavírus e outros agentes infecciosos) e realizamos a testagem de todos os óbitos por essa condição. Estamos ampliando a capacidade de testagem, seguimos a estratégia proposta do MS, de examinar casos de srag e óbitos. E isso (a alta letalidade) se explica porque Pernambuco foi o Estado que mais testou srag no Nordeste”, explicou em coletiva de imprensa online, o secretário Estadual de Saúde, André Longo.
Para ele, existe a clareza de que, por fazer “vigilância ativa de forma célere, dando transparência aos números, os casos de óbito em Pernambuco têm crescido em proporção, muitas vezes, diferente de outros Estados”. Na visão do secretário de Saúde do Recife, Jailson Correia, como a covid-19 é uma doença nova, fica difícil fazer qualquer cálculo comparativo em relação à gravidade que ela apresenta em localidades diferentes.

Retrato infiel 

Os números divulgados pelos órgãos estaduais espelham, de longe, um retrato fiel da pandemia. Epidemiologistas não têm dúvidas de que os dados relativos ao novo coronavírus estão claramente subnotificados no País, devido ao déficit de testes, principalmente em alguns Estados. Os exames são essenciais porque são eles que servem para mensurar a dimensão da epidemia. “Para se estimar o quanto uma nova doença impacta numa determinada população, falamos em mortes para cada proporção de habitantes. É muito comum expressarmos mortalidade, comparando com lugares diferentes, em número de mortes para cada 100 mil habitantes, num período de observação”, disse Jailson.
Com base nos números das Unidade da Federação apresentados pelo MS, o coeficiente de mortalidade por 100 mil habitantes (considerando a projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística para 2020) de Pernambuco é o quarto do País, ao lado do Ceará. A taxa, em ambos os Estados, é de 0,5. Os três primeiros: São Paulo (0,9), Amazonas (0,7) e Rio de Janeiro (0,6). Todos estão com o coeficiente acima do nacional, com 0,4.
Para Jailson, a vigilância ativa e a busca de esclarecimento para cada uma das mortes que acontece no Estado, por srag, “artificialmente joga esse número (associado aos óbitos) para cima e, por isso, temos aqui, proporcionalmente ao número de testes realizados, um número maior de mortes”. Ele ainda acrescenta que não há outro indicativo que possa sugerir que Pernambuco tenha uma letalidade maior. “Isso será mostrado com o tempo, com ampliação também da testagem e observação da população da cidade ou do Estado.”
A médica epidemiologista Ana Brito, pesquisadora da Fiocruz Pernambuco, explica que ambos os indicadores (letalidade e coeficiente de mortalidade) só seriam eficazes para medir gravidade da doença e risco de morte na população se fossem confiáveis. “Mas ambos estão subenumerados porque o critério de definição de casos e óbitos é puramente operacional e está sustentado num único exame laboratorial (RT-PCR), que tem a chance entre 30% e 40% de dar falso-negativo. Se não são contadas as pessoas infectadas por outros critérios de diagnóstico, não se tem vigilância adequada”, diz Ana Brito.
Informações do JC Online

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